Edmon El Maleh, El Pais, 27/1/89*
Um dos primeirisimos chefes do Shin Beth e do Mossad, os dous principais serviços secretos israelitas, um moço de 76 anos, Isser Harel, acava de confiar-se ao corresponsal de El Pais em Tel Aviv, em vèsperas da publicaçom do seu livro Segurança e democracia, todo um programa a julgar polo titulo. Apresentado sob luz favoravel, como alguem que desempenhou um papel decissivo na criaçom do estado de Israel, teria resultado oportuno e interessante, vista a actualidade, pedir-lhe umha opiniom autorizada acerca do atentado que costou a vida ao conde Bernardotte, o mediador das Naçons Unidas, em 1948. Esta atentado, que tivo lugar na Palestina, reivindicado polos grupos do Irgum de Menàgem Benguin -e Isser Harel deve conhecer muitas cousas ao respeito-, tivo por objecto torpedear os esforços das Naçons Unidas por solucionar o problema palestiniano, entre outras medidas, mediante a criaçom de dous estados.
No seu lugar, so se refere à Haganah, apresentada como um arma de autodefessa, umha forma pudica de ocultar todo um passado de acçons terroristas. Passado que pouco importa, pois o esencial, supomos, consiste em enaltecer a vertente humanitària do Shin Beth e do Mossad, que intervirom para salvar aos judeus marroquinos dirigindo-os por vias clandestinas a Israel durante os anos 1957 até 1961. Tem a sua graça o que, para essa manobra de seduçom, dirigida à opiniom publica espanhola, Isser Harel nom encontrara nada melhor que expressar o seu agradecimento às autoridades franquistas de Sebta e Mellilla, cumplices benévolos que lhe facilitarom a tarefa. Curiosa maneira esta de elogiar o coraçom dos espanhois, por utilizar as suas proprias palavras. Mas, em que consistiu exactamente aquela operaçom de salvamento? E dificil sofocar um sentimento de profunda e durareira indignaçom se se conhece a extenssom do drama que foi aquel éxodo, como confirma o proprio Isser Harel ao expor as condiçons em que tivo lugar aquela saida em massa.

Aldeias enteiras, as comunidades milenàrias judias beréberes do Atlas, do Sus, de todo o sul marroquino, de excepcional originalidade, perderom literalmente todos os seus habitantes da noite à manhà. Literalmente forom extirpados de aqueles lugares, que nom eram um gueto, nos que viviam entre a populaçom beréber de confessom muçulmana. E identica sorte correrom as grandes cidades -Marraquech, Fez, Meknes-, fogares de umha elevada e antiga tradiçom espiritual judia. Por decenas de milhares, toda aquela gente, de condiçom modesta -comerciantes, empregados, artesans, obreiros, e mesmo camponeses-, aqueles judeus marroquinos aos que se fingia salvar forom obrigados por umha propaganda mendaz a deixa-lo todo, agolpados de noite em camions, embarcados clandestinamente, a miudo com risco das suas vidas, como sucedeu quando o naufràgio de Peces, afundido por umha tempestade no estreito de Gibraltar.
Nada conseguirà fazer esquecer a brutalidade, por nom dizer mais, daquel drama, e quando se disipe a bruma ideologica aparecerà na sua crua verdade. Porque nada, absolutamente nada, justifica aquela operaçom cinicamente qualificada de salvamento. Na minha qualidade de judeu marroquino que vivia no Marrocos em aqueles anos, e estava atento ao que ocorria, tanto no plano politico como no simplesmente humano, podo atestigua-lo e invocar ademais outros testemunhos, alguns de fontes israelitas.
Nom pudendo expor agora em detalhe a situaçom entom reinante, limitarei-me a dizer que tanto em vesperas como imediatamente depois da independencia, nengum acto de violencia que lembra-se aos progromos da Europa Central, nengumha ameaça nem perigo imediato, justificavam aquel éxodo. Isser Harel, que estivo no pais -baixo umha identidade falsa, claro està- salvo algumha vagas alusons, mostra-se mui prudente ao respeito, prudencia que neste caso tem o valor de confirmaçom, e com motivo fundado: os judeus marroquinos escaparom às leis de Vichy graças, entre outras cousas, à intervençom do rei Mohamed V ante as autoridades francesas do protectorado. Muitos deles participarom, em diversas formas, na luita de libertaçom nacional. Desfrutavam, por ultimo, dumha situaçom radicalmente nova desde que o pais conquistou a sua independencia. Do estatuto particular do dimmi, quer dizer, protegidos, condiçom que perdurou baixo o protectorado francés, os judeus marroquinos passarom ao de cidadans do Marrocos, que gozavam da plenitude dos seus direitos. Até a data, os que seguem a viver no pais e formam umha comunidade de relativa importancia conservam aqueles, entre eles a liberdade de movimentos, de viajar, de exercer toda sorte de actividades e de praticar aberta e publicamente a sua religiom. Lembremos, por ultimo, que tras a obtençom da independencia, o primeiro governo marroquino contava com um ministro judeu, o doutor Leon Benzaquen, e que em todos os ministerios, incluido o de Asuntos Exteriores, confiarom-se altos carregos a jovens intelectuais da nossa comunidade. O mesmo sucedeu em todos os seitores da via publica.
Devo insistir ainda para desmentir formalmente a imagem que tenta sugerir Isser Harel, imagem que tende a apresentar aos judeus marroquinos como refugiados, expulsos do seu pais, ameaçados nos seus bens na sua segurança, na sua existencia? Umha pessima novela de espionagem, nom hai duvida; um exemplo da propaganda anti-arabe subscitada polo proprio Isser Harel, quem se jacta de ter causado com ela graves problemas ao governo e às autoridades marroquinas. Teria pagado a pena perguntar-lhe que passou com aqueles judeus marroquinos aos que di ter salvado. Aqueles judeus arabes -considerados em Israel como uns parias, trogloditas meio pagans na espera da redençom, portadores de todas as taras congènitas- forom encaminhados à sua chegada à terra prometida cara o Neguev, ali onde havia necessidade de mam de obra para erguer as novas cidades, como Dimona. Aqueles aos que a idade impedia-lhes trabalhar, acavavam morrendo nos hospicios de Telavive. Essa foi a situaçom dos primeiros anos, mas hoje ainda todo indica que os judeus orientais, maioritarios numericamente, seguem a ser minorizados e de inferior condiçom na ierarquia social do estado israelita.
Desconhecemos se Isser Harel, esse chefe providencial dos serviços secretos, escolheu o momento, tanto para publicar o seu livro Segurança e democracia, como para conceder a sua entrevista a El Pais. Seja como for, esse momento é justamente aquel no que Tsahal, Shin Beth e Mossad, o Exército de ocupaçom israelita tratam de aplasta a intifada a custa de mortos e feridos habituais; o momento no que a resposta dos governantes israelitas às ofertas de paz de Yassir Arafat é um rechaço brutal que constitui um desafio aos movimentos pacifistas tanto no interior de Israel como de todos os paises do mundo, da Europa e mesmo dos Estados Unidos.
Mui oportuno traer assim a memoria de um passado lonjano inventado com cinismo, a proposito do éxodo dos judeus marroquinos: o refugio numha historia falaz serve enganar umha opiniom publica nom informada.
Edmon el Maleh é novelista marroquino e judeu. Autor de Percorrido imovil
*traduçom sujeita a revisom ortografica