Tuesday, August 19, 2008

por umha rede global contra o império sexual

(texto apresentado polas Maribolheras Precárias no encontro que tivo lugar em Barna, outubro de 2007)

 

Talvez não saibamos o que somos, mas sim o que não queremos ser

Queeremos
incentivar as vidas alternativas e os espaços autónomos. Apostamos num antagonismo global, que incentive uma multidão de subjectividades sexuais, irredutíveis, ingovernáveis. E é que a nossa diversidade radical não pode ser representada: fufas, putas, sadomasoquistas, pedófilas, michês, trans, butchs, sem papeis, oprimidas sem estado, bissexuais, utilizadoras de drogas, polissexuais, seropositivas, migrantes, mariconços, presas, precárias, pobres... Estamos nas margens e é partir daí que podemos criar alianças insólitas, inventar novas cartografias, experimentar novas dinâmicas mestiças.

Queeremos reinventar a nossa existência e fazê-lo com todas aquelas que lutam por um mundo em que todas possamos florescer, enfrentando as políticas neoliberais ultraconservadoras que precarizam as nossas vidas.

Não acreditamos na política de partidos: não nos representam.

Não acreditamos nas identidades nacionais hegemónicas que fabricam grandes muros de exclusão: todas somos clandestinas. Somos extrangéneros.

Revoltamo-nos contra o consumo. Não acreditamos no "valho o que compro".

O nosso activismo não trata apenas da sexualidade: entendemos que há uma multiplicidade de lutas e que, na medida das nossas forças e possibilidades, é possível abordá-las de forma transversal.

Denunciamos a existência de uma Heterossexualidade Imperial

Afirmamos que não nos move apenas a luta contra a homofobia. Também existe a transfobia, a lesbofobia e outras formas de opressão. Opressões entrelaçadas, superpostas, opressões que mudam adquirindo sentido próprio. Parte dessas formas de fascismo estão produzidas por um terror ao incumprimento das normas de género; esse é o problema central: o regime que organiza e disciplina corpos, afectos e prazeres. Consideramos a heterossexualidade como um autêntico regime político com as suas leis próprias, as suas tecnologias binárias de género, as suas regulações e repressões. Todo um império de governo dos corpos que se reproduz a si próprio e que castiga quem não se submete a ele. Esta forma de Heterossexualidade Imperial que governa a vida e os corpos é, portanto, muito mais do que uma simples opção sexual, isso é o que desafiamos a partir de múltiplas posições e experiências.

Apesar de as reformas legais antidiscriminatórias serem importantes, estas não podem ser o eixo do movimento. Desconfiamos da igualdade que nos propõem porque se encontra limitada e amordaçada pelos significados de uma Heterossexualidade Imperial, que, repetimos, tem as suas leis próprias, à margem das estruturas jurídicas da forma-estado.

Que tipo de rede reivindicamos?

Partimos das margens, das periferias sexuais, de género, nacionais, económicas ou culturais. Recusamos integrarmo-nos como "movimento" na gestão das políticas "sociais" ou de "igualdade". Não buscamos a interlocução com o poder nem com quem se congregam em torno dele: às avessas. Buscamos uma transformação radical das relações de poder. Para isso consideramos fundamental construir, aqui e agora, os nossos próprios espaços autónomos: linhas de fuga no império sexual. Espaços ocupados no sistema sexo-género. Subjectividades estranhas que provocam um curto-circuito nos significados binários.

Reivindicamos outras formas de fazer política por meio de um activismo que nos faça felizes, que dê sentido ao presente e que, aqui e agora, sirva para reinventar as nossas vidas. Reivindicamos a festa, a paródia, a acção directa. Apostamos em auto-gerir o nosso lazer, os nossos afectos, a nossa criatividade: essa é a melhor forma de demonstrar que o sexo, os corpos, os prazeres, ou inclusive o seu próprio significado e a relação entre eles, está permanentemente por inventar. Queeremos contribuir para tecer redes a partir de baixo, para criar comunidades ingovernáveis, para transgredir as barreiras entre identidades. Queeremos abrir a Caixa de Pandora: experimentar novas formas de viver, novos desejos. Seduz-nos a ideia de experimentar prazeres que ainda estão por imaginar.

Entendemos esta Rede como uma aposta nas sexualidades minorizadas, na diversidade radical das identidades sexuais, numa forma antagónica de entender e viver os géneros, numa práxis vital dirigida à reapropiação do próprio corpo e dos próprios desejos. Não buscamos construir uma supra-organização que se mova no terreno de jogo clássico do movimento LGBT. Formulamos uma Rede de troca e criação horizontal de conhecimentos, experiências e afeições.

Como proposta concreta, gostaríamos de formular a criação de um banco dinâmico de dados na Rede. Uma ferramenta diferente da actual Web que tome forma de auto-publicação (ao estilo dos IMCs), uma espécie de Indymedia Queer em que possam ser partilhadas novas práticas activistas, materiais gráficos, audiovisuais, textos, etc. Esta ferramenta poderia também servir para trabalhar propostas de campanhas ou acções globais e descentralizadas.

Galiza, 20 de Outubro de 2007

Posted by nómadas queer at 22:23:39 | Permanent Link | Comments (0) |

Sunday, July 27, 2008

Destruindo o bucle, radicalizando a vida

Retomar a própria autonomia, pouco a pouco, como quem aprende a situar-se, a caminhar, a foder, a falar, a querer, a viver de novo. Com a imensa fragilidade na que nos deixou umha década de hedonismo punk. Pura performatividade difícil de destruir. Mas nom hai nada impossível...

Nom mudaria nada do vivido, do sufrido, do desfrutado, do experimentado...porque isso é a vida mesma. Mas quando, traspassados todos os límites, o bucle deixa de ser fonte de vida para se converter em puro sofrimento, quando todo se torna triste, quando vemos que a vida se apaga é momento de parar, colher ar, ar puro: e mudar de rumo; ou melhor dito, pór algum rumo.

Nessas estou, habibis. Mas, agora, firmemente decidida
Vida ou morte!
Venceremos!

post-scriptum: bye, bye Carmina


Posted by nómadas queer at 19:07:53 | Permanent Link | Comments (3) |

Tuesday, May 20, 2008

OVNIS (ondas de vida nom identificadas)




O afecto reconfortante que a velha transmite ao meninho é um afecto subversivo. Porque é um afecto que, ainda ocupando a centraliddade deste blogue, é marginal. E o marginal sempre é um reverso susceptível de subversom da ordem, da norma, das relaçons de poder. Os soldados da direita som os que habitam o real. Precissamente por isso nós, ao igual que a velha e o meninho, escapamos ao seu ângulo de visom, porque estamos nas margens da realidade.

Nom pertencemos a este mundo, somos outsiders dos significados da identidade hegemónica. Singularidades estranas que vagam no deserto, a n o r m a i s
suBvErsiVAs, extraordinárias, d escon tro l a das.

A nossa potencialidade radica em estarmos perdidas no deserto. Porque assi podemos permanecer inabordáveis. O nosso poder radica em sermos inclassificáveis. A tarefa do soldado é inútil, porque trata de identificar aquilo que é incategorizável. O soldado tem fé na tecnologia da sua cámara. Mas nós nom temos fé: as suas tecnologias, digitais, científicas, nom servem para captar aquilo que escapa à realidade dicotómica, binária: experiências de fuga que habitam as margens dos significados, e que cobram vida através dos afectos subversivos.

É no deserto, como na música de Oum Kalthoum, onde é possível imaginar, experimentar, criar arquipélagos de afectos subversivos. O seu tema cantado, Emta Omri, descreve o nomadismo e os brilhos intermitentes da chama dumha vela, metáfora das metáforas. Expressom nítida das cadéncias libertárias da sensualidade árabe e da sua falta de normas.

O soldado escruta co seu olho electrónico o horizonte do deserto; mas a sua epistemologia digital, ou militar, ou moderna, ou straight, ou médica... é incapaz de identificar -e polo tanto de diagnosticar e curar- um tipo de afectos: os subversivos. Os afectos de todas aquelas que habitamos no deserto, nas margens, nas bordas da folha de papel onde nom hai texto, no que nom é real porque ainda nom foi imaginado.

Benvindas a Queer Laden, que nasce do cruçamento entre o pensamento e a poesia: fora do texto, onde o papel está ainda em branco... só desde ai é possível desplegar umha política do desejo.

Vai adicada a todas vós:


alt : http://www.youtube.com/v/lGnsnKRBGKo&hl=en
Posted by nómadas queer at 00:39:15 | Permanent Link | Comments (2) |