Saturday, March 14, 2009

a mente Hetero (Monique Wittig)

Traduçom: Rubem Centeno

(fragmento de The Straight Mind)

Os discursos que particularmente nos oprimem a todas nós, lésbicas, mulheres e homossexuais, som aqueles que dam por sentado que o que funda umha sociedade, qualquer sociedade, é a heterossexualidade. Esses discursos falam de nós e presumem de estar a dizer a verdade num terreno apolítico, como se houver algumha cousa significável capaz de escapar do político nesse momento histórico e como se, no que a nós concerne, puderam existir signos sem significado político. Esses discursos da heterossexualidade oprimem-nos no sentido de que nos impedem falar a menos que falemos nos seus termos. Todo o que os qüestiona é imediatamente desqüalificado como elemental. O nosso rechaço às interpretaçons totalizadoras da psicoanálise fai-lhes dizer aos seus teóricos que desprezamos a dimensom simbólica. Esses discursos negam-nos toda a possibilidade de criar as nossas próprias categorías. Mas a sua acçom mais feroz é a tirania inflexível que exercem sobre o nosso ser mental e físico.

Quando usamos o mais que generalizador termo ideología para designar a todos os discursos do grupo dominante, estamos a relegar esses discursos ao terreio das ideias irreais e esquecemos assim a violência material (física) que exercem directamente contra as pessoas oprimidas, umha violência que é produzida tanto polos discursos abstractos e “científicos”, como polos dos média.

Gostaria de insistir nesta opressom material que exercem os discursos sobre as pessoas.

Nom hai nada mais abstracto no poder que tenhem as ciencias e as teorias, que o poder de actuar em forma material e concreta sobre os nossos corpos e mentes, ainda quando o discurso que as produz seja abstracto… Todas as pessoas oprimidas conhecem esse poder e tiverom que enfrentar-se com el. É o que di: nom tes direito a falar porque o teu discurso nom é científico nem teórico, porque num nível errado de análise, estás a confundir os discursos com a realidade, o teu discurso é ingénuo, entendes mal tal ou qual ciencia, etc.

Se o discurso dos modernos sistemas teóricos exerce poder sobre nós, é porque trabalha com conceitos que nos tocam mui de perto. Apesar do surgimento histórico do movimento de lésbicas, do feminismo e do de libertaçom gai, cuja actuaçom sacudiu já as categorias filosóficas e políticas dos discursos de ciências sociais, essas categorias seguem a ser sem embargo utilizadas pola ciência contemporânea sem maior análise. Funcionam como conceitos primitivos dentro dum conglomerado de disciplinas, teorias e ideias actuais que chamarei a mente hetero.

Nesses conceitos incluo “mulher”, “homem”, “sexo”, “diferença” e toda a série de conceitos que levam a sua marca, entre eles “história”, “cultura” e o “real”. E se bem nos últimos anos aceitou-se que nom existe nada ao que se lhe poda chamar “natureça”, que todo é cultura, segue havendo dentro dessa cultura um núcleo de natureça que se resiste a todo exame, umha relaçom excluída do social na análise, umha relaçom cuja característica é ser ineludível na cultura assi como na natureça, e que é a relaçom heterossexual. A isto chamo a relaçom social obrigatória entre “homem” e “mulher”…Com esse carácter ineludível, como conhecimento, como princípio óbvio, como algo dado prévio a toda ciência, a mente hetero desenvolve umha interpretaçom totalizadora da história, da realidade social, da cultura, da linguagem e de todos os fenómenos subjectivos ao mesmo tempo.  Apenas podo sublinhar o carácter opressor que reviste a mente hetero na sua tendência a universalizar imediatamente todo conceito que produz como lei geral e sobster que é aplicável a todas as sociedades, épocas e pessoas. Assim falam de intercâmbio de mulheres, da diferença entre os sexos, da ordem simbólica, do inconsciente, desejo, cultura, história, dando-lhe um significado absoluto a todos esses conceitos que em realidade som só categorias baseadas na heterossexualidade, ou seja no pensamento que produz a diferença entre os sexos como dogma político e filosófico.

A conseqüência desta tendência a universalizar todo é que a mente hetero nom pode conceber umha cultura, umha sociedade onde a heterossexualidade nom ordene nom só todas as relaçons humanas mas também a produçom de conceitos e mesmo os processos que escapam à consciência.

Rechaçar a obriga do coito e as instituiçons que essa obriga produciu como necessárias para a constituiçom dumha sociedade é simplesmente impossível para mente hetero, dado que fazé-lo significaria rechaçar a possibilidade de construir o outro e o rechaço da “ordem simbólica”, e também faria impossível a constituiçom de significados, sem o qual ninguém pode manter a sua coerência interna. Assim o lesbianismo, a homossexualidade e as sociedades que formamos nom podem ser pensadas nem faladas, ainda quando sempre existiram. Assim a mente hetero continua afirmando que o incesto, e nom a homossexualidade, é a sua principal proibiçom. Assim, quando é pensada pola mente hetero, a homossexualidade nom é outra cousa que outra heterossexualidade.

Sim, a sociedade hetero basea-se na necessidade do diferente/outro a todos os níveis. Nom pode funcionar económica, simbólica, lingüística nem políticamente sem esse conceito. Esta necessidade do diferente/outro é ontológica para todo o conglomerado de ciências e disciplinas que eu chamo a mente hetero. Mas, que é o diferente/outro senom o dominado? Porque a sociedade heterosexual nom só oprime a lésbicas e homossexuais, oprime a muitas e muitos diferentes/outras/outros; oprime a todas as mulheres e a muitas classes de homens, a todas aquelas pessoas que estám na posiçom de dominadas. Constiuir umha diferença e controlá-la é um acto de poder, dado que é esencialmente um acto normativo. Todas as pessoas tratam de mostrar que a outra ou outro som diferentes. Mas nom todas tenhem êxito na sua empressa. Há que ocupar umha posiçom social de poder para lográ-lo.

Por exemplo, o conceito de diferença entre os sexos constitui ontologicamente às mulheres como diferentes/outras. Os homens nom som diferentes, a gente branca nom é diferente, nem o som os amos. Mas a gente negra, assim como as escravas e esclavos, sim. Esta característica ontológica da diferença entre os sexos afecta a todos os conceitos que fam parte do mesmo conglomerado. Mas para nós nom existe isso de ser-mulher ou ser-homem. “Homem” e “mulher” som conceitos políticos de oposiçom e a cópula que os une dialécticamente é, ao mesmo tempo, a que os fai desaparecer. É a luita de classes entre mulheres e homens a que vai fazer desaparecer a homens e mulheres (o mesmo sucede com todas as outras luitas de classes onde as categorias em oposiçom ‘reconciliam-se’ atravês da luita cuja meta é fazê-las desaparecer). O conceito de diferença nom tem por sim próprio nada de ontológico. É só a forma que tenhem os amos de interpretarem umha situaçom histórica de dominaçom. A funçom da diferença é enmascarar a todos os níveis os conflitos de interesses, mesmo os ideológicos.

Noutras palabras, para nós, isto significa que já nom pode haver mulheres e homens e que, como classes e categorias de pensamento ou linguagem, devem desaparecer política, económica e ideológicamente. Se nós como lésbicas e vós como homossexuais seguimos a pensar-nos e a falar-nos como mulheres e como homens estaremos preservando a heterossexualidade. Estou segura de que nengumha tranformaçom política nem económica pode-lhe quitar o seu dramatismo a essas categorias da linguagem. Podemos redimir as palabras escrava ou escravo. Podemos redimir niger, negress (termos denigrantes para as pessoas negras). Em que difere “mulher” dessas palabras? A transformaçom das relaçons económicas nom abonda. Devemos produzir umha transformaçom política dos conceitos clave, quer dizer, dos conceitos que som estratégicos para nós. Porque há outra ordem do material, o da linguagem, e a linguagem vai-se elaborando entrono a estes conceitos estratégicos. Está ao mesmo tempo profundamente conectado ao campo político, onde todo o que concerne à linguagem, à ciência e ao pensamento, refere-se à pessoa como subjectividade e à sua relaçom com  a sociedade. E nom podemos deixar isto dentro do poder da mente hetero, ou seja do pensamento baseado na dominaçom.

…Rachamos o contracto heterosexual. Isto é o que as lésbicas estamos a dizer por todas partes, se nom com teorias, atravês de práticas sociais, e ainda nom sabemos quais poderám ser as repercussons disto na cultura e na sociedade hetero. Alguém que se adique à antropologia poderá dizer-nos que teremos que aguardar cinqüenta anos. Sim, se umha quer universalizar  o funcionamento destas sociedades e fazer aparecer os seus rasgos invariantes. Mentres tanto, os conceitos heteros vam-se socavando. Que é a mulher? Pánico, alarma geral para umha defessa activa. Francamente, é um problema que as lésbicas nom temos porque temos feito umha mudanza de perspectiva, e seria incorrecto dizer que as lésbicas relacionamo-nos, fazemos o amor ou vivemos com mulheres, porque o termo ‘mulher’ tem sentido só nos sistemas económicos e de pensamento heterossexuais. As lésbicas nom somos mulheres (como nom o é tampouco nengumha mulher que nom esteja em relaçom de dependência pessoal com um homem).

Monique Wittig (The Straight Mind)

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Wednesday, March 11, 2009

la homofobia mata, juzga y se absuelve a sí misma

Diagonal, 5 de março de 2009: http://www.diagonalperiodico.net/spip.php?article7393


Rubem Centeno (activista de Maribolheras Precárias)

En plena reacción mediática solicitando el cumplimiento íntegro de penas a raíz del caso de Marta, la chica asesinada en Sevilla, un jurado popular acaba de absolver al responsable de la muerte espeluznante de dos gays en Vigo –uno de ellos negro e inmigrante– aduciendo “legítima defensa” y un “miedo insuperable” a ser violado. El jurado popular, conjurando miedos atávicos y convirtiendo al verdugo en víctima, ha emitido una sentencia que exime al responsable de los asesinatos debido a “un estado de pánico que anuló su capacidad de comprender la ilicitud de lo que hacía”. La pregunta que tenemos que hacernos es ¿pánico a qué? Tanto Maribolheras Precárias como Aturuxo, Federaçom Galega LGBT [lesbianas, gays, bisexuales y transexuales], han emitido comunicados criticando duramente la sentencia y llamando a la movilización en las calles. Aturuxo convocaba el 25 de febrero a cientos de personas en Compostela.

En Vigo, los amigos de los gays asesinados han organizado una concentración para el 7 de marzo. Hay más movilizaciones previstas en Zaragoza, Barcelona y Madrid. Hay cuerpos, hay vidas que no importan para la sociedad heterosexual. O al menos, que son secundarias ante el uso del terror para la protección de las normas de género. Ese miedo, según el jurado, es una eximente completa para absolver al verdugo que asestó 57 puñaladas a sus víctimas. Julio recibió las primeras puñaladas mortales, una de ellas le seccionó el hombro, dejando un reguero de sangre mientras huía arrastrándose por la pared del pasillo de su casa. Fue rematado en el salón.

Su compañero al-Daní logró refugiarse en una habitación cuando ya estaba gravemente herido. Mientras llamaba por teléfono pidiendo auxilio, el verdugo tiró la puerta abajo, le arrebató el móvil y lo remató a puñaladas. Posteriormente se duchó, recogió en una maleta todo lo que había de valor en la vivienda, abrió el gas y prendió fuego a los cadáveres antes de marcharse. Todo ocurrió el 12 de julio de 2006, cuando el verdugo acudió al after gay de Vigo en el que al-Daní trabajaba de camarero. De allí se fueron al piso que al-Daní compartía con Julio. Los informes forenses dan cuenta de la crueldad y el ensañamiento al que fueron sometidos los cuerpos. A la vista de las pruebas periciales no parece creíble la versión de los hechos dada por el acusado, que afirma que fue despertado y amenazado con un cuchillo por una de las víctimas para mantener relaciones sexuales. Y aún en el hipotético caso de que así fuera, las muertes y los hechos están ahí. El jurado no sólo ha creído la rocambolesca versión del verdugo sino que lo ha considerado no culpable. Si ya es execrable la conducta del verdugo, ¿qué se puede decir de un tribunal que absuelve al responsable a pesar de la propia inculpación del autor, de las pruebas periciales y de los informes forenses? La defensa dijo en su favor que “se encontraba en el lugar equivocado en el momento equivocado”.

El acusado se presentó a sí mismo como un padre de familia arrepentido que incluso pensó en suicidarse tras los hechos por la vergüenza que sufriría su familia. Terminó su declaración diciendo “no culpo a nadie, la culpa es mía, de cómo soy”, lo que conmovió al jurado, arrancando las lágrimas de tres de sus miembros. La sentencia, que ha sido recurrida, es paradigmática del ‘pánico gay’, utilizado como eximente en numerosos crímenes homofóbicos y que ha sido algo recurrente desde el siglo XIX en la represión de conductas perversas o en razzias populares contra las minorías sexuales.

Este jurado legitima los asesinatos homofóbicos y abre la veda a la impunidad en la comisión de crímenes de odio. Cualquier hombre blanco heterosexual estaría legitimado a usar la violencia si se siente ofendido ante proposiciones que considera inmorales o que puedan ser una afrenta a su masculinidad. Este jurado popular ha asesinado por segunda vez a Julio y a al-Daní. Pero seguiremos luchando porque sus cuerpos, sus vidas, sí que importan. Y mucho.

fotografia de Moncho Vázquez: http://www.flickr.com/photos/mvazquez/show/

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